EUTANÁSIA
- EUTANÁSIA

(Palestra de Geraldo Valim – 05/02/2006)

 

        “O JUSTO PERECE E NINGUÉM PONDERA ISSO EM SEU CORAÇÃO; HOMENS PIEDOSOS SÃO TIRADOS PARA SEREM POUPADOS DO MAL. AQUELES QUE ANDAM RETAMENTE ENTRARÃO NA PAZ; ACHARÃO DESCANSO NA MORTE” ISAIAS 57:1.

 

        No dicionário, eutanásia significa o ato de proporcionar morte sem sofrimento a um doente atingido por afecção incurável que produz dores intoleráveis. Será o texto acima referente a uma eutanásia Divina? Isso justificaria sua prática pelos homens?  No Brasil, a eutanásia é proibida por lei, e não pode ser praticada.

        Mas será que a questão acaba aí? Certamente não. Novos termos estão sendo introduzidos no debate, que é em essência ético, e não legal. Não só a eutanásia, mas a distanásia e a ortotanásia estão em questão. Quando estamos lutando com um doente para mantê-lo vivo, estamos prolongando a vida ou a agonia da morte? Porque se estamos prolongando a agonia da morte, estamos praticando a distanása. E a realidade das UTIs é que a distanásia é praticada rotineiramente.

        Devemos distinguir a eutanásia voluntária, que seria o suicídio assistido, como o que foi desenvolvido pelo Dr.Kevorkian, da eutanásia involuntária, que é decidida por outros, sem a participação do doente.

        Também devemos ter em mente que a medicina tem por escopo auxiliar e promover a recuperação natural da saúde. Assim, a retirada de meios de suporte em casos sem esperança não é considerado eutanásia. 

        Não existe discussão quanto ao dever de exercer misericórdia, mas esse dever não deve levar a infração de outros postulados morais. É fato, como ensinado por Kierkegaard, que Deus, em sua soberania, suspende a ética em algumas ocasiões, como vemos claramente em várias narrativas do Velho Testamento. Mas isso é atributo divino. O versículo de Isaias que nos lemos se enquadra aqui. Deus, em sua soberania, pode suspender a ética, e intervir. Se ponderarmos, veremos que há uma coerência divina. Quanto a nós, temos que agir no máximo de nosso entendimento, procurando ter uma ética aprovada por Deus, não no lugar de Deus.

        Contra a eutanásia podemos considerar o seguinte: - Da perspectiva do paciente, existe quase sempre uma sensação de que ele é um peso morto, e de que o viver não tem mais sentido. Quase nunca ele considera que o viver dele pode de fato ter sentido para outros.

        Do ponto de vista dos médicos e da enfermagem, a eutanásia pode levar a uma perda de confiança na sociedade, na sua capacidade de cuidados com doentes graves, e induzir a um julgamento pessimista da situação. Além disso, leva também a uma divisão na equipe de trabalho, seja em opiniões, seja na esfera de competências.

        Do ponto de vista da sociedade, há um grande perigo de que da eutanásia voluntária se passe para a eutanásia compulsória, como já ocorreu na história, na Alemanha nazista. O tráfico de órgãos é uma ameaça muito presente, com o aumento das possibilidades de transplantes. E há também a questão dos voluntários para experiências médicas, que tem a aparência de um gesto nobre, mas na realidade barateia a vida, e valoriza demais a autoridade humana sobre a vida.

        A experiência pessoal de cada um, e o ensino bíblico estão de acordo que a morte é inevitável para todos; a esperança do cristão está na ressurreição, com um corpo transformado, como o de Cristo. Mas mesmo o cristão, que tem essa certeza, não lida bem com o conceito de morte. O salmista descreve a situação de risco de morte como um vale escuro (Sal. 23:4); o Apóstolo Paulo, em 1 Cor. 15:26, descreve a morte como um inimigo, que ao fim será destruído. Mas até a morte ser destruída pela vitória, (1 Cor. 15:54), nos todos a vemos como um inimigo, não como amigo. E isso dificulta um bom julgamento ante ela, a morte.

        Mas devemos nos lembrar que Cristo nos liberta do medo da morte. Ele nos liberta dela, e nos da nova vida, transformando a morte em um interlúdio, que não nos separa do amor de Deus que é nosso em Cristo (Rom. 8:38, 39).

        Voltando ao assunto: a eutanásia é possível, é praticável? A resposta pragmática é não.

        É impossível se estabelecer medidas de segurança adequadas, tanto para o paciente como para a sociedade. As questões de seguro de vida, de heranças e outros quesitos legais são quase que insuperáveis por si só.

        A pessoa que assina um documento optando pela eutanásia o faz com saúde, e não será a mesma pessoa por ocasião da utilização do documento, quando estará sob o impacto da doença.

        A depressão, ou a confusão mental, demandam tratamento psiquiátrico, que nem sempre é disponibilizado, sendo esse tratamento psiquiátrico substituído por uma opção pela eutanásia.

        Colocando a questão de sua própria morte em pauta, em Fil. 1:21-30, o Apóstolo Paulo pondera que a vontade de Cristo deve prevalecer, mesmo que ele, o Apóstolo, preferisse morrer.

        Como então conciliar a misericórdia devida a esses doentes com a impossibilidade da eutanásia? Devemos melhorar os cuidados aos pacientes pré-terminais. Deve ser providenciado o apoio médico, psiquiátrico, e espiritual necessários; os hospitais e clínicas devem desenvolver programas de capacitação de seu pessoal para lidar com a morte e o paciente moribundo; e compete ao estado, e a nós cristãos, promover uma educação social, para que as famílias em geral, e as pessoas em particular, saibam lidar com a morte. A melhor maneira é pregar a verdade da cruz (1 Tes. 4:13-18), mostrando que entre   há esperança, e que o versículo seguinte de Isaías, o 57:2, vale sempre para nós cristãos:

 

        Aqueles que andam retamente entrarão na paz; e acharão descanso na morte”.

 

       Andar retamente é andar com Jesus.

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