A CRUELDADE DO UTOPISMO

                

      Utopia é, por definição, uma idéia boa, mas impraticável. Utopismo é um padrão genérico de tomar decisões utópicas e de agir baseado nessas decisões.

Pecado é pecado e não deve ser chamado de outra forma. Não é uma manifestação de amor justificar o pecado por um condicionamento determinista psicológico ou social. Nada justifica o pecado fora de Jesus Cristo. Frases como “o importante é ser feliz” ou “aconteceu e foi mais forte do que eu” são comuns, mas não servem para justificar nada. Os homens de fato precisam de um Salvador. Em virtude disso nossa geração deve resistir ao pensamento relativista e/ou determinista de nossa época, que não vê erro em nada, e aceita tudo sem um referencial. Devemos lembrar sempre que pecado é assunto sério, e que deve ser combatido em todas as situações.

Agora, uma coisa é a santificação, aquele esforço legítimo de viver a vida nos padrões de Deus. Outra é negar a realidade da queda do homem, e viver um utopismo.

Sabemos que há em nós uma compulsão para ser feliz a qualquer custo, um impulso vital inerente a nossa condição humana. Isso, e, fundamentalmente, a revelação divina, nos ensina que TODOS os homens são pecadores, e deve nos prevenir da crueldade do UTOPISMO. O utopismo é cruel, pois ele espera de homens e mulheres o que eles não são e não serão ate Cristo voltar, ou até irmos ter com Ele. Em sua coluna no Estadão de 14/03/06, disse Arnaldo Jabor: “Aprendemos que utopia é uma palavra ridícula!”. Vemos que, apesar de ser senso comum, muitas pessoas vivem uma utopia. Na realidade, essas pessoas não vivem, de fato, uma utopia. Elas querem que OS OUTROS vivam uma utopia. Esperam, e até exigem se puderem, uma perfeição do outro. E às vezes de si mesmos. Esse utopismo deixa de lado o que a Bíblia ensina a respeito da condição pecaminosa do homem.

Assim como o pecado, que é coisa séria, estaremos também sendo desrespeitosos ao ensino bíblico se considerarmos um romantismo ou um utopismo menos seriamente do que o pecado.

O entendimento do homem, do ponto de vista cristão não deve ser apenas teórico, mas prático. Aliás, a visão bíblica do homem é prática, realista, e nos deveria guiar a um entendimento das pessoas muito melhor que o de um cínico ou um romântico qualquer. Assim, não deveríamos ficar tão surpresos quando uma pessoa se mostra pecadora, pois afinal de contas nós sabemos que todos são pecadores, como eu mesmo.

O utopismo é cruel porque espera o impossível das pessoas. Essas expectativas não são baseadas na realidade. Pelo contrário, está em oposição às verdadeiras possibilidades humanas, como revelado pelo realismo das Escrituras.

O utopismo pode ser danoso. Em casa, no relacionamento marido-mulher, nada é mais cruel do que um dos dois construir uma falsa imagem do cônjuge, e passar a exigir dele uma perfeição que só existe em um romantismo falso. Um comportamento assim é contrário à doutrina bíblica de pecado. Mesmo depois de redimidos, não somos perfeitos. Não é que não devamos chamar o pecado de pecado, mas sim que devemos ter compaixão um do outro também.

O utopismo é também danoso no relacionamento pais-filhos. Quando um pai exige de uma criança mais do que ela pode dar, esse pai não só a prejudica como a torna uma alienada. Mas pode ser também que a criança venha a esperar muito dos pais. É uma faca de dois gumes. E quando esse pai mostra que não está a altura das expectativas da criança, ela tenta subjugá-lo, puní-lo.

O utopismo também é prejudicial no relacionamento de uma congregação com seu pastor. Quantos pastores não foram esmagados porque a congregação esperava que atingissem um ideal impossível? E quantas congregações não foram afrontadas por pastores que esqueceram que não se pode esperar perfeição da congregação?

Em qualquer relacionamento, se nós exigirmos perfeição, e nada mais, é certeza que ficaremos com nada mais.

Utopismo é muito comum nas igrejas cristãs. Isso é muito ruim, pois não tem nada a ver com os padrões bíblicos. As pessoas constroem uma imagem de como um cristão é, ou de como uma comunidade cristã é, por uma projeção de seus ideais, e ficam constantemente voltando para dentro de si mesmas, para uma análise subjetiva, só para concluir que ninguém está à altura dessa imagem. É comum ouvirmos coisas como “um cristão é assim ou assado”, ou “um verdadeiro cristão faz assim e assado”, e logo em seguida vem alguma observação destrutiva.

É difícil, mas um cristão deve entender que um pecado é um pecado, mas ao mesmo tempo deve evitar o modelo de perfeição ou nada mais. Ver I João 2:1-2. O apóstolo João deixa claro que o ideal é não pecar, mas Jesus provê perdão ao pecador.

Abraão é um exemplo bíblico. Pelo menos por duas vezes ele mentiu sobre sua mulher, Sara, dizendo ser sua irmã. “Sóror mea est”. Muitos tentam minimizar o fato, humanizando-o, dizendo que de fato Sara era meia-irmã de Abraão. Isso não muda nada, pois a Bíblia narra por duas vezes, como que para enfatizar o fato, que Abraão tentou foi enganar ao Faraó e a Abimelec. Sara também mentiu. Tentou mentir até para Deus, dizendo que não tinha rido.

Da perspectiva bíblica nós aprendemos aqui que, mesmo o grande Abraão, o pai da fé, o amigo de Deus, o patriarca de Israel, que demonstrou muitas evidências da imagem de Deus, pecou, e precisava ser salvo, resgatado de seu pecado. O apóstolo Paulo entendeu Abraão como uma excelente ilustração: “Portanto, que diremos do nosso antepassado Abraão? Se de fato Abraão foi justificado pelas obras, ele tem do que se gloriar, mas não diante de Deus. Que diz a Escritura? “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça.” Ora, o salário do homem que trabalha não é considerado como favor, mas como dívida. Todavia, aquele que não trabalha, mas confia em Deus, que justifica o ímpio, sua fé lhe é creditada como justiça.” Rom 4:1-5. Não foi por ser perfeito que Abraão foi justificado, pois ele não era perfeito.

E Abraão não foi eliminado do rol dos cooperadores de Deus porque pecou. Aliás, Deus sabia desde o início quem era Abraão. Não foi que quando ele estava em Ur dos caldeus Deus tinha a ilusão que Abraão seria perfeito, e foi depois desapontado. Deus não foi pego de surpresa. Ele sabia quem era que estava sendo escolhido. Não há homens perfeitos para o trabalho de Deus. E para nenhum outro tipo trabalho.

Ao refletirmos no realismo da Bíblia, devemos nos lembrar que todos nós somos homens e mulheres, pecadores, com muitas conquistas em nossas vidas com Cristo, sem dúvida, mas pecadores, até Jesus voltar outra vez. E que não há nenhum homem ou mulher que não necessite de oração, de misericórdia de Deus e de uns dos outros. E quando encontrarmos o próximo em alguma imperfeição, nossa primeira atitude deve ser “como eu posso ajudar”, e não exigir perfeição. Foi assim que Deus, que sabia como e ajudou, fez com Abraão.

“Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-se mutuamente, assim como Deus os perdoou em Cristo.” Efésios 4:32.